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Arquitetura de marca: guarda-chuva ou marcas separadas?

8 minutos

Apple vende iPhone, iPad e MacBook sob o mesmo nome. No entanto, a Procter & Gamble vende Gillette, Pampers e Oral-B sem que quase ninguém saiba que pertencem à mesma empresa. Portanto, ambas as escolhas são estratégicas, e chamam-se arquitetura de marca.

Ou seja, arquitetura de marca é a estrutura que organiza como uma empresa relaciona sua marca principal com suas linhas de produto e submarcas. Ela define se o público reconhece a marca-mãe em cada produto, como no modelo guarda-chuva, ou se cada marca caminha sozinha, como no modelo de marcas independentes. Assim, essa escolha molda investimento em mídia, risco de reputação e velocidade de crescimento do portfólio.

O que é arquitetura de marca, na prática

Pense na arquitetura de marca como uma planta baixa. Ela não decide a cor da parede nem o logotipo, mas decide onde ficam as paredes que separam um cômodo do outro, ou seja, onde uma marca termina e onde outra começa aos olhos do consumidor. Assim, duas empresas podem vender produtos parecidos, com o mesmo padrão de qualidade, e ainda assim crescer de formas completamente diferentes, apenas por causa da planta baixa escolhida no início.

Portanto, antes de discutir modelos, vale isolar a pergunta central que toda empresa em expansão de portfólio precisa responder. Quando o consumidor descobre um novo produto da empresa, ele deve pensar “isso é da mesma marca que eu já conheço”, ou deve nem perceber a ligação entre os dois?

Os 4 modelos de arquitetura de marca

Existem quatro modelos principais de arquitetura de marca, segundo referências internacionais de branding. Além disso, cada um resolve um problema de negócio diferente, e nenhum deles é superior aos outros em todos os cenários.

Marca guarda-chuva (branded house)

Por exemplo, nesse modelo, uma marca-mãe forte empresta seu nome e sua identidade a todos os produtos. Apple, Google e Tesla seguem esse caminho, já que iPhone, Google Maps e Model 3 reforçam a mesma marca central a cada compra.

Portanto, o principal ganho da marca guarda-chuva é a eficiência. Todo investimento em marketing fortalece um único ativo, e a confiança conquistada em um produto se transfere automaticamente para os demais, sem custo adicional de construção de marca.

Contudo, esse modelo carrega um risco proporcional ao benefício. Se um produto falha ou vira crise, a marca-mãe inteira sente o impacto, porque não existe distância entre as partes, e um problema isolado vira problema de todo o portfólio.

Marcas independentes (house of brands)

Contudo, aqui, a empresa-mãe fica praticamente invisível, e cada marca constrói identidade, público e posicionamento próprios. Procter & Gamble e Unilever são os exemplos clássicos, já que poucos consumidores associam Gillette e Dove à mesma corporação.

Assim, esse modelo permite atacar públicos diferentes sem conflito de posicionamento. Por exemplo, uma marca pode ser premium e outra popular, sem que uma canibalize a percepção da outra.

Em contrapartida, construir cada marca do zero custa caro. Sem o empréstimo de reputação da marca-mãe, cada nova marca precisa conquistar confiança sozinha, do primeiro ao último consumidor, o que exige tempo e investimento contínuo em mídia.

Marca endossada (endorsed brand)

Além disso, o terceiro modelo é o de marca endossada. Nesse caso, a submarca tem identidade própria, mas carrega o nome da marca-mãe como selo de confiança. Courtyard by Marriott é o exemplo mais citado, já que “by Marriott” transfere credibilidade sem apagar a identidade da submarca.

Portanto, a marca endossada equilibra os dois extremos anteriores. Ela dá autonomia de posicionamento à submarca, mas ainda empresta parte da confiança já construída pela marca-mãe, funcionando como um meio-termo estratégico.

Modelo híbrido

Por fim, o quarto modelo é o híbrido, quando uma empresa combina os três anteriores conforme a categoria. A Coca-Cola ilustra bem esse caso, já que opera como guarda-chuva em alguns mercados e como marca independente em outros, dependendo da bebida e da região.

O exemplo brasileiro: Hypera Pharma

Por exemplo, no Brasil, a Hypera Pharma exemplifica um modelo híbrido dentro do próprio setor farmacêutico. Primeiro, marcas de consumo como Benegrip, Engov, Neosaldina e Zero-Cal operam de forma praticamente independente, cada uma com identidade e campanha próprias, disputando espaço de prateleira e de mídia como se fossem concorrentes entre si.

Em contrapartida, a linha de prescrição usa a marca endossada Mantecorp Farmasa, que sinaliza pertencer a um grupo consolidado sem abrir mão de identidade específica para cada especialidade médica. Dessa forma, a Hypera constrói escala em consumer health e ainda mantém credibilidade científica junto ao médico prescritor, dois objetivos que dificilmente conviveriam sob uma única marca guarda-chuva.

Além disso, no setor de beleza, o Grupo Boticário segue lógica parecida. Enquanto O Boticário mantém identidade própria e forte reconhecimento nacional, marcas do mesmo grupo, como Eudora e Quem Disse, Berenice?, disputam espaço em canais e públicos diferentes, quase sem menção à marca-mãe na comunicação voltada ao consumidor final. Portanto, o grupo colhe o melhor dos dois mundos, com uma marca âncora forte e submarcas livres para atacar nichos que O Boticário sozinho não alcançaria.

Comparando os 4 modelos

CritérioGuarda-chuvaMarcas independentesEndossadaHíbrida
Investimento de mídiaConcentrado, alta eficiênciaAlto, uma marca por vezModeradoVariável por linha
Risco de reputação compartilhadoAltoBaixoMédioDepende da linha
Velocidade para lançar produto novoRápidaLentaModeradaModerada
Flexibilidade de posicionamentoBaixaAltaMédiaAlta

Arquitetura de marca não é um detalhe de identidade visual, é uma decisão de negócio que define como cada real investido em mídia se acumula, ou se dispersa, ao longo do portfólio.

Como escolher entre guarda-chuva e marcas separadas

Primeiro, pergunte se o público de cada linha é o mesmo ou muda por categoria. Se o público muda muito, marcas independentes tendem a funcionar melhor do que um guarda-chuva único.

Em seguida, avalie se a reputação pode ser compartilhada sem risco. Além disso, setores sensíveis, como saúde e alimentação, sentem mais o impacto de uma crise compartilhada do que categorias de menor risco, o que empurra esses setores para modelos endossados ou independentes.

Depois, considere o orçamento disponível para construir marcas novas. Um guarda-chuva economiza investimento de marketing, enquanto marcas independentes exigem capital para cada nova identidade, do zero, sem atalho.

Por fim, avalie se existe necessidade de distância entre categorias, como entre uma linha premium e uma popular. Portanto, nesses casos, a marca endossada costuma equilibrar economia e distância de posicionamento melhor do que os extremos.

O erro de decidir sem estratégia

Contudo, muitas empresas decidem essa estrutura por acidente, lançando produto atrás de produto sem nenhum critério. Consequentemente, o portfólio cresce desorganizado, e a marca-mãe não sabe mais o que representa aos olhos do consumidor, misturando categorias e públicos que deveriam estar separados desde o início.

Por que essa decisão não deveria ficar só com o time de design

Além disso, arquitetura de marca costuma nascer de uma reunião de marketing ou de uma decisão isolada de lançamento, sem passar pela mesa de quem pensa o negócio como um todo. Portanto, o resultado mais comum é um portfólio que parece coerente no manual de marca, mas se comporta de forma confusa na prateleira, no anúncio e na busca do consumidor.

Da mesma forma, decisões de fusão, aquisição ou entrada em um novo segmento deveriam sempre passar por essa pergunta antes de qualquer peça criativa ser produzida. Assim, a arquitetura de marca funciona como a base sobre a qual todo o resto, do naming ao rebranding, se apoia.

Perguntas frequentes sobre arquitetura de marca

O que é arquitetura de marca?

É a estrutura que organiza como a marca principal de uma empresa se relaciona com suas submarcas e linhas de produto, definindo se o público reconhece a marca-mãe em cada produto ou não.

Qual a diferença entre marca guarda-chuva e marcas independentes?

Na marca guarda-chuva, todos os produtos carregam o mesmo nome e reforçam uma única marca. Nas marcas independentes, cada produto tem identidade própria, sem ligação visível com a empresa-mãe.

Quando faz sentido usar marca endossada em vez de guarda-chuva?

Quando a submarca precisa de posicionamento próprio, mas ainda se beneficia da credibilidade da marca-mãe, como acontece em linhas técnicas ou de prescrição médica.

Pequenas empresas também precisam pensar em arquitetura de marca?

Sim, mesmo com poucos produtos, decidir cedo entre guarda-chuva e marcas separadas evita retrabalho caro quando o portfólio crescer.

Arquitetura de marca é o mesmo que rebranding?

Não. Rebranding muda a identidade de uma marca já existente, enquanto arquitetura de marca decide como múltiplas marcas de um mesmo portfólio se relacionam entre si.

O erro é crescer sem escolher um modelo

Portanto, arquitetura de marca não é apenas identidade visual, é uma decisão de negócio que define como cada real investido em mídia se acumula, ou se dispersa, ao longo do portfólio.

Assim, antes de lançar a próxima linha de produto, pare e decida o modelo certo, porque corrigir uma arquitetura de marca depois de anos de mercado custa muito mais do que planejar desde o início.

A Narro aplica essa estrutura de comunicação estratégica em cada projeto que assina.

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